Um conto que escrevi :
ESCOMBROS
1
Realmente não sabia onde estava, mas lera o
endereço no pedaço de papel amassado que estava em seu bolso
e tinha certeza que chegara ao local certo, pelo menos
estava escrito, mas nem importava se não lembrava quase nada,
até mesmo sobre o papel esquecera. Lembrava algo vagamente, não
exatamente porque estava ali, um lugar tão estranho. Pensou em
sair ao perceber não saber como era o prédio por fora. Apenas
lembranças de acontecimentos um pouco antigos lhe acometiam com
o mesmo gosto de café requentado desta manhã por exemplo —
embora nem tivesse muita certeza se o que se lembrava fosse
mesmo referente a esta manhã ou a ontem à noite, alguns
dias atrás, sabe-se lá quando!
Virando a cabeça disfarçadamente cheirou a
axila e sentiu que não tomara banho. É, devia ter batido com
a cabeça igual acontece nos filmes e pronto passara o dia
vagando e acabou chegando ali: um lugar lúgubre apesar das
paredes pintadas de vermelho! Havia um relógio na parede
marcando três horas e logo percebeu que estava parado, o
balcão a direita não deixava dúvida de ser um bar, sem
bancos entretanto, algumas mesas à esquerda onde havia mais
adiante um pianista muito velho, magérrimo, com ar de tísico
e parecia ter os dentes ou muito separados ou salteados: um,
vazio, um, vazio... Não tinha a aparência de pianista — e
afinal como é a cara de pianista? — por que diabos achou
que fosse um pianista?, além de estar sentado próximo ao
piano, mas do lado oposto ao teclado; era um semi-cauda muito
feio, preto encardido, sem brilho, necessitando de um
polimento talvez há muitos anos, dava pra se ver mesmo na
penumbra.
O velho se levantou, parecendo ler os
pensamentos de quem o olhava tão detidamente, falou alguma
coisa soando uma língua estrangeira, fez uma moganguice, soou um
certo risinho das pessoas ali presentes, tão poucas, ao menos
escalavrou o silêncio, e saltitante como uma criancinha ele se
sentou na banqueta parecendo um pianista de verdade. Se deteve
pra ouvir o que o velho tocaria e por ver a cena bizarra,
sentiu estar com a boca aberta em tempo de uma mosca entrar
— havia muitas ali. A música que ele tocou foi não só
feia como mal tocada e o som do instrumento não ajudava, era
feio, fraco, as teclas precisavam ser golpeadas com muita
força!
No final do bar depois de um lance de
três ou quatro degraus havia um curto corredor onde no final
havia uma cortina vermelho escuro, quase bordô, dava a
impressão de ser um cinema, mas ficou com receio de olhar,
aquelas pessoas estranhas do bar poderiam falar alguma coisa,
afinal não tinha ingresso. Lembrou-se de ter que comprar
uma roupa, calça comprida, sim era isso, as suas estavam
puídas nas pernas, mas seria ali? Ao seu lado viu duas
funcionárias com batas brancas, uma porta de vidro aberta,
dentro muita luz parecendo camarim de artistas, a semelhança
existia porque era um salão de beleza, sem nenhum cliente,
mesmo assim as duas conversavam animadamente contando fofocas e
rindo com trejeitos de drag queen que invariavelmente adquirem
ao longo da profissão de cabeleireira. Se calaram ao verem
aquela pessoa estranha com ar espantado, transpirava o estado
confuso em que sua memória vagava, indo e vindo, perdida num
labirinto onde sempre esbarrava em paredes sólidas sem
nenhuma pista de como chegara ali, quanto tempo andara, nem
sobre o papel no seu bolso, o que faria ali realmente,
comprar roupas ou o quê?
Assustou-se ao ver uma moça sorridente
sair detrás da parede do salão, ela poderia dar respostas
pois falava sem parar.
— Você veio, que bom! A sua mãe disse
que você viria ver as calças, né? A loja é aqui ao
lado, mas sabe o que eu queria? Ela disse que você
entende de alimentação, essas coisas, é da área, é? Eu
tenho um problema: sou muito magra! Não consigo engordar,
acho que os alimentos não param em mim, porque eu como,
como, como e não engordo, só fico magra, magra...
Quis dizer que não, que ela estava bem
assim, mas ao ver as pernas dela, ficou sem palavras e pior,
olhando fixamente, pois nunca vira nada assim, a calça
jeans era tão colada e as pernas tão finas, mereciam o
epíteto de caniços, não pretendia passar a impressão de tanto
espanto, porém todos ali pareciam ler pensamentos.
— Caniço! É isso mesmo, eu não
disse? Todo mundo tenta ser falso comigo, não adianta, eu
sei da minha magreza. Sabe o que eu comi hoje?
Foram andando de volta para o bar e as
duas funcionárias fecharam o salão e andando mais rápido
saíram apressadas, já era hora de fechar então? A moça
das pernas de caniço não parava de falar, ao se
aproximarem do balcão foi como se a voz dela tivesse
sumido, lá estava o pianista encalacrado com um trecho de
uma música facílima, caso não fosse uma pessoa estranha
ali iria ajudá-lo, tocaria, sabia tocar! Conhecia a
música: "Assim Ninava Mamã", Villa-Lobos pra
petizada . Nem ousaria tocar ali numa espelunca daquelas, sem
saber como o pianista reagiria. Quando voltou a si a pernas
de caniço tinha sumido. Era hora de ir embora também,
pensou em sair, pegou o papel no bolso e leu de novo o
endereço. Uma mulher atrás do balcão com fartos cabelos
louros, soltos, ria de uma forma esquisita; um cliente com
boné, cara de caminhoneiro tomava um cerveja na garrafa, um
outro sentado muito largado próximo ao piano ria menos,
contudo da mesma forma enigmática. O pianista estava muito,
muito chateado, repetia sem parar de errar o trecho e
insistia, parecia criancinha quando está estudando, porém com
toda aquela idade era patético, por que simplesmente não
pulava aquele trecho? O velho pareceu ler o pensamento e
balançou a cabeça negativamente, trincou os dentes com raiva
e determinação e continuou a errar.
Suspirar e ir embora dali era só o que
restava a fazer, claro, ninguém tinha cara amistosa que
pudesse lhe ajudar, responder às tantas perguntas perdidas,
sendo também tragadas pelo esquecimento.
Virou-se e foi na direção das portas,
uma pequena fechada foi a escolhida pra sair, sem saber porque,
já que havia a maior escancarada de onde vinha uma forte
luz de fora contrastando com a penumbra pantanosa daquele
antro; parecia ser uma janela por causa de um batente alto,
típico de onde há enchentes, não fosse a distração
olhando o pianista embirrado teria visto por onde as três
saíram, se por ali ou por esta porta pequena de ferro que
empurrou devagar, com cautela, parecia já saber que ela
abria pra fora, e por uma nesga viu uma corrente e aos
poucos a fera presa à corrente, um cão muito arisco,
silencioso, porque cão que ladra não morde, com o olhar
de ataque, viu então que havia uma aldrava e um cadeado
por fora, não daria pra abrir nem que quisesse, sentiu
enorme alívio pois a fera parecia sedenta de abocanhar o
que quer que se parecesse com osso, melhor se coberto de
carne suculenta.
Olhou de soslaio e todos riam, andou até
a porta grande, por precaução olhou se a corrente do
canzarrão não alcançaria a aquela distância. Por via das
dúvidas se esgueirou pela direita, ouviu o pianista soluçar,
sentiu uma pena tão grande, nada poderia fazer, já tinha
tanto no que pensar e tentar resolver, como iria ajudá-lo
naquela situação? E pra quê? Uma pessoa com aquela idade
não deveria ser tão exigente consigo mesmo. Depois queria se
afastar dali o mais rápido possível, nem ouvir mais aqueles
risinhos indecifráveis, nem sentir o abafado de dentro, por
isso começou a passos rápidos e depois desembestou em uma
corrida sem direção definida, contanto se afastasse dali.
Parou pra recuperar o fôlego e ao olhar em derredor
desconheceu tudo, era como e nunca tivesse posto os pés
ali, sentiu-se na lua tamanha era a devastação, parecia uma
cidade bombardeada, só via ruínas aonde a vista alcançava,
o único prédio em pé era aquele e por fora era pintado
de vermelho, parecia uma caixa de sapatos assim visto de
longe, por que só ele estava de pé, não sofrera bombardeio?
Sim era uma boa pergunta. Ali deviam estar os traidores desta
guerra, por isso não havia gostado daquela gente desde o
começo, em todas as guerras, em todas as lutas sempre há
traidores, por isso é mais fácil confiar num cão, não
aquela besta feroz, o cachorro acorrentado tão minúsculo perdeu a
importância e parecia latir e se mexer mas sem meter mais
medo, nenhum som chegava ali, exceto o vento e sua própria
respiração.
Sentou num pedaço de parede caída, a
caliça começou a coçar em seu nariz, se lamentou por não
saber onde estava , nem como chegara ali, quem lhe deu o
papel, como sabia o que sabia e não sabia o que importava?
Nada à sua volta era familiar. Viu que a luz diminuía, logo
escureceria, seria bom achar um lugar pra dormir, mas não
havia uma palhoça sequer, nada, nenhum teto, o céu límpido
sem nuvens, mas se esfriasse? A solidão não pareceu ruim
por causa da breve convivência com as pessoas detestáveis
do bar, como dizia o ditado: "antes só que mal..."
Mas não , um soluço, era a amplidão que incomodava, era
muito espaço pra um ser vivo apenas, não parecia com sua
casa de paredes tão curtas e baixas, apenas quatro janelas,
uma porta e o espaço exíguo compartilhado com plantas, com
os móveis e livros — quando são bons parecem gente! — e
então sentiu saudade da limitação de passos , de ter um mapa
desenhado de cor, sabendo se mover pela cidade , conhecendo
tantas pessoas de tantos estabelecimentos, de ver tantos bichos,
mesmo os asquerosos do esgoto, até o esgoto dali estava
destruído, destruição a perder de vista e em breve não
veria mais nada, anoitecia muito depressa por ser inadiável e
esta certeza calou dolorida em seu peito, chorou
desbragadamente, lembrou do pianista ridículo e se comparou a
ele, como?! Ser ridículo é privilégio ou desgraça de
poucos, não sabia mais graduar os adjetivos, sabia apenas
sentir saudade de tudo e chorar. No labirinto turbilhonavam
todas as imagens, sons, cores, cheiros, toques, sabores,
sentimentos, tudo de bom, sonhos, imaginação, a medida que
volteava aumentava mais ainda a falta. Escurecia e volteava,
escurecia e volteava e...
A noite surgiu medonha escondendo toda a
ruína, poderia trazer o sono que a todas as dores mitiga,
poderia trazer um esquecimento maior do passado mais distante,
poderia também não trazer a aurora — trivialidade desde
tempos remotos sobre o planeta, sim o planeta! Ao lembrar da
Terra parou de girar. Nem mais voluteava, nem chorava. Ainda
respirava. Sim , já lamentara tudo que tinha pra lamentar,
então lembrou do Planeta tão bombardeado por gente estúpida,
tão grande pra quem é tão pequeno e tão pequeno
dançando num Universo tão grande. Sem ter matado as saudades
entretanto reconheceu nas estrelas a mesma noite que a tudo
envolve, um consolo, a constatação que a Terra gira apesar
da Santa Inquisição, sua memória guardava ainda o
essencial pra se viver, faltava apenas um pequeno lapso e
com o cansaço de um dia — ou foram vários? — igual uma
criança, adormeceu suavemente.
2
Sim, havia dormido sobre escombros. O
cheiro de caliça com pólvora — urânio empobrecido tem
cheiro? — e o que mais usaram pra destruir? O fedor
invadia o nariz de maneira veemente até o sono dissipar
tudo, mas acordou e... Surpresa!
Estava em uma praia. Sofreria de
sonambulismo sem saber? Vá lá uma praia muito estreita e
muito curta, sem virar a cabeça, só com a visão lateral
abarcava um lado e outro, começo e fim, e o mar a frente
tão calmo, parecia morto.
Como acordara ali? Se dormira na cidade
destruída por bombas, ultrajada até a nulidade, como
despertaria ali naquela praia pequenina com um cheiro de mar
queimado, meio doce, nauseabundo, sem ter andado? Mas ainda
estava em completa solidão. O sol fumegava igual caldeira,
atrás de si um monte com grama tímida, esparsa, aqui e
acolá e mais adiante chamuscada. Teria que subir pra ver
do outro lado, tento se levantar, as pernas estavam dormente, é
ici em Tupi! , então sabia Tupi? Pernas dormentes. Eita!
Enquanto batia as mãos nas pernas pra agitar a
circulação ouviu risos e vozes, uma animação enorme,
balbúrdia, as vozes, sim, eram as duas cabeleireiras e a
vendedora de perninhas finas, as três de maiôs antigos do
século passado, por quê? Seria carnaval? Mais pessoas , várias
sem trajes de banho, vinham com a mesma alegria eufórica.
Uma menina esquisita ou seria uma boneca de porcelana?,
chegou carregada e a colocaram numa espreguiçadeira, vestia
maiô listrado e completamente imóvel, coitada, se fosse
gente era tetraplégica, se fosse boneca era muito bem feita!
Eram tantas pessoas com toalhas, cestas,
garrafas, farofeiros, conversavam numa língua estranha, sim,
igual ao que o pianista falava , esfuziante, incompreensível,
totalmente aberrante diante daqueles escombros que vira no
dia anterior. Lotaram a prainha.
O mar pareceu se irritar com a algazarra,
as pernas já melhoravam, as águas se agitaram repentinamente
, fez movimentos pra subir o morro e foi justo em tempo
de escapar pois ondas enormes começaram a se formar,
quebravam cada vez mais na estreita faixa de areia até
se formar uma tão gigantesca, fácil prever o que
aconteceria, as pernas ainda preguiçosas desembestaram aos
trancos e barrancos, todos chisparam numa debandada
exuberante e a menina-ou-boneca de porcelana ou paralítica?,
sabe-se lá!, quis gritar pra alguém salvá-la, não sabia a
língua deles e já era tarde demais. A onda quebrou sobre
a boneca-ou-guria de cerâmica e em seguida o mar se
acalmou, o ataque de cólera aplacado e o povaréu que o
desencadeou sumiu. Desceu pra ver a menina que continuava na
espreguiçadeira, afinal era uma boneca mesmo, mais bem
acabada que um guerreiro de Xian, que pena, estava esfacelada
em vários pedaço, o crânio estava aberto e dentro, se
agachou e viu, havia um montão de jóias, pedras preciosas
brilhavam, pérolas, ouro, enquanto admirava aquele tesouro
ouviu um som vindo dela... Riu Devia ser impressão, ah,
riqueza, o som devia ser alucinação auditiva, com certeza não
poderia ser, a boneca.. não, boneca de porcelana não... Outra
vez! Boneca nenhuma peida! Outro, maior! Ergueu-se por ímpeto e
ficou imóvel um átimo e ao sentir o mau cheiro saiu
correndo, correndo, subiu o monte e sem fôlego parou numa
inquietação absurda porque estava diante de uma metrópole.
Quê?! Sim uma grande cidade como... qualquer uma, são todas
semelhantes: fétidas, mal urbanizadas, poluídas, repletas de
mazelas, se espalham igual câncer, com excesso de carros,
superpopulação de gente, ratos, animais de estimação, cheias
de barulhos, cores, sinais, propagandas e olhares escorregadios
que nada vêem.
Boquiabertamente deambulou, ah, o
sonambulismo leva as pessoas aos lugares mais estranhos, esta
seria uma explicação plausível, ou outros distúrbios do
sono, são tantos! É mesmo! Então bastava ir até um
hospital público, aonde? Perguntar não parecia ser boa
ideia, a todos que lançava um olhar não encontrava
receptividade, se sentiu invisível, tantos quase esbarravam em
seu frágil corpo que os movimentos contorcionistas pra se
desviar já causavam dores. Avistou um prédio tão alto, tão
branco, lhe pareceu um hospital. Entrou e as pessoas lhe
cravaram de olhares pasmos lhe deixando mais sem norte do
que já estava. Um balcão branco, tudo tão branco, tão
limpo, dissonante da sujeira das ruas , todos limpos e de
roupas brancas, exceto aquela amnésica criatura desconfiada ,
deslocada, ao se aproximar do balcão não o tocou com
medo de sujá-lo. Desconfiava de seu fedor, não sentia, mas
talvez porque o olfato já tenha se acostumado, de soslaio se
viu ainda cravejado de olhares impiedosos. Nem fedia muito,
só um pouquinho!
Abriu a boca balbuciando pra uma
enfermeira de farda e chapeuzinho plantada detrás do
balcão, gorda, com cara de buldogue, tão branca quanto a
roupa que usava, as bochechas caídas, séria de cabelos
ruivos, dentes trincados, metia medo, nada disse, apenas
apontou pra um cartaz com vários cartões de planos de
saúde, deixando bem entendido que ali atendiam apenas pessoas
com aqueles cartões. Está bem!
Com o rabinho entre as pernas e passos
miúdos, diminutos devido ao vexame, à humilhação, ainda
olhou ao redor como se pedisse desculpas por não ter um
cartão de plano de saúde, por não estar de roupas
brancas, por não estar com o corpo limpo, não ter memória,
não saber quem é, que papel era aquele em seu bolso,
NADA! Queria marcar a todas aquelas pessoas na memória, se
um dia pudesse se vingar ao menos daquela balofa
fouveira, quanta raiva! Ranger os dentes e franzir a cara
na rua não adiantava. De inopino ficou de quatro e esmurrou
a calçada perfeitinha do prédio de planos de saúde,
asquerosamente branca e limpa. Tomou um susto enorme da sua
força ou da fraqueza da calçada ao quebrar num dos murros
um pedaço grande formando um buraco irregular e ainda de
quatro viu lá dentro, embaixo do hospital tão asséptico, um
clube noturno, um típico inferninho, com piano, vozes, danças,
tilintar de gelo nos copos, risos e a música ótima bem
tocada num ótimo piano, se encheu de curiosidade de ver quem
tocava tão bem e, não se surpreenderia mais com nada na
vida, era ele, o velho não mais ridículo e tocando músicas
dificílimas bem à beça, feliz da vida. Todos acenavam tão
simpáticos, os mais próximos estenderam as mãos pra
puxarem o ser quadrúpede de tão embasbacado, imóvel, caiu
delicadamente numa poltrona macia e aconchegante. Apesar da
penumbra havia muito brilho na roupa de todos, nos copos,
espelhos, o piano reluzente, roupas antigas, uma moça alta
lembrava a Josephine Baker dançando saliente, uma baixinha
segurando um violão era a cara da Aracy de Almeida e um
rapaz ao seu lado bem podia ser o Noel, entram músicos
idênticos aos Oito Batutas. Não! Teria morrido e ali era o
Céu que o povo fala? Só podia ser ou alucinação. Por via
das dúvidas foi até um espelho e fungou pra ver se
embaçava. Sim, então ainda não era sua hora de bater as
botas. Ao dissipar o embaçamento no espelho o bar todo e todas as
pessoas também se dissolveram ficando uma tênue luz , o espelho
refletindo sua imagem.
Ah, isto também havia sumido das suas
lembranças: sua própria imagem. Houve um certo estranhamento, ver
a si e se esforçar pra recobrar alguma recordação com
aquela figura — foto, espelho, filme, poça d'água, o que
fosse. Riu. Começou a gargalhar animadamente. Passara por
escombros de guerra, maremoto, metrópole, boêmia sem a memória
completa, cheia de lacunas, ria, maravilhosamente álacre, tocou
o espelho e sua face e se vendo no reflexo e sentindo seu
apalpar na pele constatou que os vazios de lembranças, os
destroços, tudo seria suprível desde que nunca esquecesse que
era alguém.
3
O espelho se abriu igual porta de
elevador. Era um elevador e um poço de elevador com um balde
mesmo não sendo poço de água, enfim, entrou e desceu até o
centro da Terra. E não era como lera na ficção com perigos
e tudo mais, nem como diziam geólogos com magma, nem mesmo
terra, por que o planeta se chama Terra então? Deveria se
chamar vácuo. Planeta Vácuo. Seria o Inferno que o pessoal
fala? Qual o quê! O mais completo vão a perder de vista e
silêncio absoluto, nem o chiar do silêncio ouvia e o tato parecia
ter se evaporado, seu peso desaparecera, flutuava no mais completo
vazio lhe envolvendo ao contrário das pessoas que aparecem na
televisão e têm o oco dentro delas.
Um susto a mais não faria diferença. Começou
a escutar o trotar de um cavalo. Toc-toc-toc. Quando se virou
havia um branco, enfeitado, tão lindo, parecia rir ao relinchar e
meneava a cabeça como se quisesse indicar uma ação. Nem
precisou mais que isso! Quem não adoraria passear num corcel
tão simpático? Só depois lembrou que ali não havia chão, era
o vácuo, e já havia montado: ora, por que estranharia, o que
perderia num fortuito passeio?!
Depois de algum tempo apareceu água salgada,
depois doce, de todas as cores, do verde esmeralda ao azul
marinho, passando ao marrom escuro, cobre, e além de voar o
cavalo também dava mergulhos, pareciam ter brânquias, e
sentia o bater das asas invisíveis daquele dócil Pégaso,
assim sobrevoaram a Hiléia. Porém havia perigo também naquele
paraíso: indígenas esparsos, desprotegidos, falavam tantas
línguas, agora a todas entendia, dançavam em inúmeros rituais,
comiam, caçavam, brincavam, pescavam, descontraídos, ainda
levando a mais frugal existência e também havia caboclos mais
conformados com o terrível desígnio, todos tremendo de
impaludismo, queimando em febres intermináveis e por isso
passivos. Não agüentava ver sem poder fazer nada! O cavalo
entendeu e voou mais alto, ainda avistou pastores-geólogos
bradando as sandices de sempre, ouviu tratores, motos-serras,
tantos horrores!
Contudo ainda havia um céu azul e a imensidão
dos verdes das copas das árvores, viu os tantos bichos, as aves —
uma por um triz não arranhou sua face —
e quando viu a chuva incomparável igual aos rios de onde
vinha, indo de volta num ciclo imemorial, resolveu apear do cavalo
como se fosse tão prosaico e ao descer não estava mais em
lugares estranhos, nem no ar, na água, vácuo, subterrâneo, nem
sentia tristeza, euforia, medo, raiva, estranhamentos, solidão: tudo
era familiar! Estava enfim em sua casa pequena de quatro
janelas e uma porta, acabara de tomar banho e olhando através
da janela, anoitecia e as estrelas incontáveis surgiram no
misterioso infinito, se lembrou que por esquecer havia tão
pouco e tanto para ser lembrado. Tudo era tão simples e
claro.