sábado, 29 de dezembro de 2018

Micro-ditos

Caderno de 8cm X 5cm para escrever haicais, aforismos, enfim, micro-ditos, como estes:

Horizontes abertos aos montes
A  m    p   l    i    d     ã      o         d   e     v     i   d   a

                             
                     @               @               @
         

Qual o significado
Nunca antes encontrado
De algo ignorado?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Três filmes tristes e belíssimos!

Vi no Festival do Rio 2018 três filmes daqueles para se  ver com lenços ensopados de  lágrimas. E a beleza deles é daquela que impregna na memória. É bom saber que pessoas  de  países  tão diferentes se preocupam com o que importa  de fato e esmiuçam.
Cafarnaum, libanês,  de Nadine Labaki conta a saga de  Zain, um menino de rua que processa os  pais. É o retrato 3 X 4 sobre o que há em tantos países. Há também uma  imigrante e seu bebê fofo, mãe exemplar ao contrário da mãe do pequeno heroi.  Atores maravilhosos e os lados do problema sem maniqueísmo. As entranhas  da miséria nunca são agradáveis de se ver, porém, com uma  edição habilidosa e uma  conclusão simples  e  precisa,  a diretora conseguiu fazer uma obra-prima, premiada com o grande  prêmio do Júri no Festival Cannes.
Guerra Fria, polonês, de  Pawel Pawlikowski, mesmo diretor do premiado Ida. Como o nome  diz trata daquele tempo de  sofrimento, angústia, um sufocamento que a beleza das músicas folclóricas do começo escorraça. Nenhuma  tortura é  mostrada, a  odiosa ausência de  liberdade não é dita  em discursos panfletários. Tudo está lá sob uma  história de  amor impossível de ter  final feliz. É tão pouco tempo de  filme onde  coube  tão bem o horror daquela época. As músicas são lindas.
Assunto de Família, japonês, de Hirokazu Koreeda, ganhou a  Palma de  Ouro em Cannes.  Uma história de uma  criança que sofre maus tratos e é acolhida em outra família, sem que os pais biológicos saibam, ou seja, legalmente, é sequestrada.... Mas  a dimensão humana comporta Leis estáticas? As múltiplas qualidades que uma pessoa pode ter e que passam despercebidas da maioria das  pessoas  e  das  instituições são escancaradas com leveza.  Fica evidente que os julgamentos precipitados sem saber o passado de alguém são  sempre injustos. As vítimas mais vulneráveis e nunca  ouvidas são as  crianças, óbvio.  O erro de  considerar os pais biológicos aptos a criar os  filhos sem acompanhamento na credulidade  de um amor inato parece ser universal. E as  crianças infelizes, maltratadas, provavelmente serão adultos infelizes que maltratarão ou serão maltratados, em um círculo vicioso. Como quebrá-lo?
O incrível nestes três filmes, além da  beleza das cenas, dos atores excelentes, das  histórias cativantes, é a percepção que temos aqui fora, imersos na  escuridão da  sala de cinema, de que tudo poderia ser diferente se... se... se...
Mas não é diferente; por isso choramos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O Grande Circo Místico, o filme





Que poema inspirador este do Jorge de Lima, deu pano pra manga: um espetáculo com músicas lindas de Chico Buarque e Edu Lobo e agora o filme de Carlos Diegues.
O Circo de picadeiro circular, círculo, redondo como nossa Terra a rodopiar por aí na Via Láctea. Todos os povos sempre ao redor de fogueira, brincando, conversando, dançando, de tempos imemoriais até hoje, no século XXI que foi o das ficções científicas da literatura e cinema, às vezes distópicas.
Sob a lona toda a fauna e todas as emoções, há curiosidades: uns bichos são artistas e uns humanos assistem e aplaudem igual crianças, o leão Nero não devora o homem. Aqui proibiram animais em Circos com a desculpa de maus-tratos, como se não houvessem maus tratos aos bichinhos de estimação em lares-doces-lares… Filmaram em Portugal.
Quem não leu o poema não capta certas ironias e detalhes, mas mesmo assim nada é incompreensível. A personagem Celavi ( soa como “é a vida” em francês), criada para o filme, é genial! Não envelhece em um século, afinal , a Vida não envelhece.
As datas escolhidas e as situações mostram a história do Brasil. No começo do séc. XX, antes das Guerras terríveis, o mundo do progresso onde o cinema anunciava mudanças enormes – para o bem e para o mal – era cheio de esperança. Na ditadura as drogas pesadas chacoalhando as estruturas de qualquer pessoa sensível. E hoje em dia a decadência e pobreza, em tempos de realidade virtual, onde a realidade verdadeira e concreta se esfacela junto com a imaginação individual.
Contudo a crença fiel no que é importante – Cultura, alegria, imaginação, magia, resiliência, etc. – leva ao final poético( não leia se não viu o filme): sob lona rota e esfarrapada as gêmeas puras fazem um espetáculo mágico, sob os olhares embevecidos dos homens poderosos, da mãe mística, dos empregados, de Celavi, em imensa alegria e leveza contestam a Lei da gravidade… em tempos em que malucos afirmam a Terra ser plana, tudo é possível, hahahaha! E Celavi diz: “Hoje é de graça!”, a ambiguidade deixa ao gosto do Respeitável Público:  escolha o sentido que lhe aprouver a esta “graça”. Não custa nada: imaginar é sempre grátis!
Ainda há de brinde durantes os créditos no letreiro final a bela canção Na Carreira que sintetiza tão bem a alma do artista.
Em outro filme, Cacá Diegues disse Bye, Bye Brasil. Neste há um Brasil que persiste apesar dos pesares, e se recusa a dizer “ Adeeeeeeeeeeus!”
Oxalá, resista!

segunda-feira, 29 de outubro de 2018


               Tempos Turvos



            o quanto pode ser descrita uma tristeza
mil olhos não bastam para tanto pranto
                Será uma noite tão turva
totalmente insana sobre nossas cabeças
no torrão natal aquele lugar que a gente chama de meu país
     nem é mais meu nem país
                           de tão descaracterizado
Serão tempos turvos de um pesadelo angustiante
onde temer é a tônica e viver  um sonho distante
Ser em tempos turvos é a melhor resistência
e Estar de olhos abertos
                                          diante do breu
antes do retorno do Sol
A água que tolda também se aclara
           mais cedo ou mais tarde
os tempos turvos se dissipam
              com o cansaço ao  rude
                      Whatsapp
troglodita travestido de high tec
em Vale do Silício que silencia
                a Antiguidade
Link desfeito da Humanidade consigo mesma
                 que era  através da História
Lá onde reside a alma que Mefistófeles cobra sem alarde
Tempos turvos tosam a Criatividade
Contudo
               se Gilgámesh sobreviveu ao touro e a tantas guerras
e nos chegou aqui no século XXI
          de um Iraque combalido mas
                                  Vivo
De qualquer um ser capaz nem podemos duvidar
               até mesmo com um simples sopro poder dissipar
                                  a turvação do tempo
E nos atracar em terra firme
              onde sobre a viva esperança
Os indígenas resilientes
                                            há 518 anos
                     Dançam
                                      Ainda...


( Cristina Paraguassu, em 25/10/2018)

terça-feira, 17 de julho de 2018

Poemeto

A poesia é asa
               pra abanar o mormaço
da obtusidade e desolação       

Caligrafias Flutuantes, nº 16

Nova série de aquarela e nankim: Caligrafias Flutuantes 16

Pintura, acrílica s/ tela 2018


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Filmes da Índia

Mês passado no CCBB RJ houve a mostra Novo Cinema indiano com curadoria de Shankar Mohan e Carina Bini. Todas as sessões lotaram, sendo inexplicável não serem lançados no circuito comercial. Não vi todos os filmes, mas gostei de todos que vi. Seguem as impressões que me deixaram:
CINEMAWALA
Dir.: Kaushik Ganguly/2015/105min
Uma homenagem aos filmes em película, aos cinemas antigos e o conflito de gerações. Sem ser maçante também mostra a questão ética totalmente ligada à estética. Um elenco excelente! Deu saudade do volume e textura das películas, ainda não há isso no digital.

ILHA DE MUNROE
(Mundro Thuruth)
Dir.: Manu/2015/92min
Primeiro filme desse diretor, começou muito bem! Um drama com elenco fascinante em uma ilha paradisíaca, a história simples de um pai que leva o filho delinquente para passar uns dias com o avô ingênuo que pensa em tratar o neto adolescente com a medicina tradicional da Índia. O jovem rejeita os usos e costumes do avô, prefere refrigeramte e Kit-kat. O conflito que no começo parece tragicômico descamba para a tragédia. E não é isso que acontece quando a Cultura de um povo é destruída?

GERAGALU
Dir.: Nikhil Manjoo/2015/90min
Achei o mais fraco e como a foto da divulgação mostrava o ator caracterizado para Yakshagana, a expectativa era de ver mais dança e a representação: as poucas cenas são lindas. Há erro de continuidade em uma cena e uma cena engraçada com a foto do Papa Francisco. O resto é a questão do ego enorme e o neto do ator chega para salvá-lo da auto-destruição.

O OVO DO CORVO
(Kaaka Muttai)
Dir.: M. Manikandan/2014/109
Filmes onde há crianças costumam ser sempre bons, mas esse é muito mais que isso. Os dois atores mirim trabalham melhor que muita gente grande. A miséria de lá é nossa conhecida antiga por isso não causa espanto. E toda a saga para provar pela primeira vez na vida uma pizza seria surreal se não fosse tão comum. Um filme inesquecível!

O FAZEDOR DE CAIXÃO
(The Coffin Maker)
Dir.: Veena Bakshi/2013/123min
A diretora veio do mundo da publicidade, logo o filme tem as marcas desse defeito. Porém, além de filmado em uma aldeia de Goa, possui um humor e mesmo a cena de um jogo de xadrez entre a morte e Anton, inspirado em Bergman que se inspirou em uma pintura de uma igreja, consegue fugir dos estereótipos: o jovem que faz a morte é um galã. E o herói Anton é um homem desesperançado. E o tema dos desejos e ausência deles está sempre atual.

PUNHALADA NO CORAÇÃO
(Katyar Kaljat Ghusali)
Dir.: Subodh Bhave/2015/161min
O único filme de Bolywood, longo e eletrizante do começo ao fim. A questão da garganta de onde sai a voz estar localizada entre o coração e o cérebro é mostrada com cantos de uma beleza exótica, com vozes belíssimas e o drama exagerado que lembra as novelas mexicanas, às vezes dando o efeito contrário , em vez de lágrimas, risos, de tão exagerado. Mas em um país como o nosso onde o EGO de certos cantores é maior que a voz e o talento, foi inevitável a comparação. Filme aplaudido no final.

QUE ASSIM SEJA
(ASTU)
Dir.: Sumitra Bhave e Sunil Sukhtankar/2014/135min
Esse filme deveria passar em circuito urgente! É sobre o Alzheimer, as consequências e os conflitos que causa, sem deixar de ir além: mostra que memória e esquecimento são entremeados por mal entendidos e reações que vão além de saúde e doença, tempo passado e futuro, tocando em sentimentos como afeto e solidariedade que são atemporais e imemoriais. A cena mais bonita e foi usada na divulgação é do velho, a criança e a elefante deitada, todos dormindo o sono tranquilo dos inocentes.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Micro-Ditos

Os  Micro-ditos são frases, poemetos, aforismos, etc.

1- longe depende do ponto de vista e perto também/ mas a distância existe e o planeta é único e enorme/ e nós tão desconformes


2-seguir metas é quase impossível: a vida é tão cheia de atalhos e sentidos/ e pessoas decisivas


3-o Sol é espetacular/tanta luz e calor/ embora ninguém o adore mais como a um deus/ ele continua a iluminar


4-correr linhas sobre superfícies e dar vida aos mais simples traços/ eis o desenho de fato



5-Há algo surreal ou hilário em ser brasileiro/ o resto é inventado/ papo furado de forasteiro

Crítica de Cinema


Uma  das  críticas  que  mais  gostei de  escrever foi essa  sobre  o  filme  As 14 Estações  de Maria, saiu no  Blog  Cinema  na Veia.

14 Estações de Maria (Kreuzweg) Alemanha - Cor, 110min - 2014

A Bíblia, que levou milhares de  anos  sendo escrita e é considerada por bilhões de pessoas como palavra de Deus, já inspirou grandes obras de arte.
Este filme alemão do diretor Dietrich Brüggemann, mostra o martírio de uma adolescente cristã,Maria( Lea Van Acken, excelente atuação) seguidora de uma linha ultra-conservadora que  não aprova o Concílio Vaticano II, ainda reza missa em latim, continua com as mesmas práticas medievais, e terminam alçando o demônio que juram combater a protagonista esquecendo do Amor que Cristo pregava.
A peversidade da mãe(Franziska Weisz) é tão bem exibida que há um gozo sádico nas expressões da ótima atriz. O pai é de uma passividade revoltante. Dos três irmãos menores, o mais novo de quatro anos se recusa a falar e essa "doença" será o catalisador que Maria encontra pra sua fuga rumo ao Paraíso.
A empregada Bernadette(Lucie Aron) estrangeira que fala mal o alemão,  é admirada por Maria por ser madura, ou seja, normal!
E o doce amiguinho da escola,Christian(Moritz Knapp), -- que achei que poderia  ter um nome mais "satânico", Lucious , ou contestador Jörg Mario por exemplo, já que ele canta Gospel e Soul, além do divino Bach, no Coral -- é uma tentação de carne e osso e vida prosaica, bom demais pra permitido na lógica insana deles.
A cena dos colegas de escola põe a questão da tolerância en passant. O que é tolerância? Qual o limite da liberdade e autoridade se houver risco à vida?
Completamente enredada na lavagem cerebral dos fanáticos, Maria segue as 14 Estações de Cristo que são intertítulos do filme, na mesma via crucis sadomasoquista, mas em pleno século XXI.
É um filme para estômagos fortes, com câmera parada que lembra Kenji Mizogushi (também no sofrimento);  talvez fosse melhor classificado commo filme de terror! O esvaimento  do corpo anoréxico de Maria é um pálido reflexo do que aconteceu com a mente dela.
Alguém desavisado poderia considerar uma ficção absurda, inexistente. Mas , por incrível coincidência, há poucos dias houve em Nova Friburgo o encontro de um grupo Católico ultra conservador que se rebela contra o Papa Francisco, nega o holocausto, e educam crianças da mesma forma vista no filme.
Talvez a passagem do politeísmo onde os deuses tinham qualidades  humanas para o monoteísmo tenha afastado demais certas pessoas peversas das maravilhosas qualidades terrenas, entre as quais, tomar sorvete. cantar em coral e fazer bons filmes como este!

Caligrafia, minha pintura da série de nankim e aquarela


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Aquarela, da série Pessoas Humanas.


Questões da  Humanidade: 1- Quando as fronteiras caírem e as crianças não estiverem mais sob o jugo de pais ou quaisquer adultos autoritários, o mundo melhorará.
Tanto já melhorou mas Fronteiras e Pátrio Poder sobre as crianças continuam... Que fazer?

terça-feira, 19 de julho de 2016

MICRO-DITOS

188


a Lua é a pérola do nosso céu
– ostra tão frágil     poluída     craquelada

domingo, 24 de janeiro de 2016

Este poema  dá  nome  ao  meu  novo  livro :

MIRAGEM DE ESTIMAÇÃO


                                                             Para Helena  Martinho  da  Rocha

que o vento me traga boas notícias
como nas poesias antigas
em que se exaltavam as musas
e toda vida parecia ser singela
o mundo eterno e a água potável
lembramos de cada tormento
e esquecemos alegrias inenarráveis
o dia-a-dia precioso e cheio de infinitos tesouros
cada olhar é uma novidade
embora possa ser o mesmo em aparência
espantosa diferença
se houvesse a serenidade
e a delicadeza voltasse
o Planeta estaria salvo!
com tudo que haja
estando ou não em fórma
que o corpo até mesmo pereça
alquebrado
a data de validade é incógnita
em cada vida
esses deleites
filigranas da alma
sedosos pensamentos
em plena bruma
são o elo do ser com tudo
e talvez uma miragem de estimação...
Fazer o quê?
é com o que se pode
que castelos são feitos
e se a matéria-prima
é o vento
a alegria será edificada
e quiçá
um poema ou pedido:
que me traga boas notícias
mais nada!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Poema para o fim do Ano: Feliz 2016!

todos os dias uma beleza se apresenta diante dos sentidos
-- disse Borges em Os Conjurados -- 
um vento na pele
um azul no céu
o canto de um pássaro
ou o insípido da água no paladar
sedento sermos do belo  é óbvio e normal
       porém
aos embotados sentidos
o que resta fazer
senão os artificialismos
inúteis     desnecessários    e      caros
com que acham que gozam
e nem se satisfazem
mas procuram um estado entre o 
Nirvana tão decantado
   e o sonho mais belo que nunca ousaram ter
nas utopias
sem a simplicidade de seus próprios corpos
livres das amarras e soltos
no espaço infinito
tão fácil e perto de ter
ao alcance de um mero toque




Poema de  Márcia Cristina  Paraguassu

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sobre o filme " Guera nas  Estrelas "


                                                                                                               para Oscar Fuller


"Minha  Pátria é minha  língua" disse  o poeta Fernando Pessoa que  achava ser o 4º Império o Anglo-Saxão, do Reino Unido migrou  para  os EUA ( segundo JLGodard no filme  Elogio do Amor é  um  país  sem  nome próprio já  que  "estados unidos" cada  país  tem  os  seus e  América há a do Sul, Central e do Norte...). Não é segredo para  ninguém que  depois da guerra de independência  de  Cuba, final do séc. XIX , foram  vários pensadores  falando em "Destino Manifesto" e as demais ações todos  sabem, chegando ao cúmulo de Costa Gavras  contar que  um  figurão do cinema dos EUA disse  pra  ele:" Por que  você  europeus  fazem  cinema? Deixem que  nós  fazemos  tão  bem!" E Wim  Wenders em um depoimento  no Extra  do DVD de Land of Plenty disse que "o Cinema  dos EUA colonizou  nosso  subconsciente!" A maior  prova  dessa  colonização é  um grupo Carnavalesco  de  Ramos, Rio de  Janeiro, Brasil, chamado Cacique de  Ramos cuja  fantasia  é  de índio da América do Norte, dos  filmes de Western... a despeito de  haver quase 200 povos indígenas  no Brasil com plumárias, adereços  e roupas lindíssimas! Mas não passaram  no Cinema...

Star Wars é um  sucesso de bilheteria incontestável e detestado por muitos que não se dão ao trabalho de  averiguar porque faz tanto sucesso. A fórmula  infalível dos blockbusters é Sangue  e Lágrimas, ou seja , violência e melodrama  com  trilha  sonora melosa e grandiloquente. E pitadas  de humor também, mesmo  que  seja  de  mau gosto como um sapato voando com o respectivo pé decepado dentro!
E por que o sucesso permanece  por  40 anos e continuará? Sem dúvida há algumas qualidades, a  principal é um roteiro que respeita o que Vladimir Propp organizou em 31 funções e 7 personagens  principais (até na  Wikipedia há essas  informações). Propp foi um  estudioso dos Contos  populares da Rússia, coletou e percebeu que  todos  seguiam  a mesma estrutura com variações. Os maravilhosos irmãos Grimm coletaram muitos contos também; Câmara  Cascudo aqui no Brasil idem; Bruno Bettelheim escreveu o ótimo "Psicanálise dos  Contos  de  Fadas" e muitos outros.
E neste  episódio "O Despertar  da Força" há novidades: uma mulher jovem como heroína, um homem jovem  e negro ( detalhe  que  se  não fosse  ainda  haver racistas nem deveria  ser  mencionado) que  era do lado das trevas(os malvados) e, de  repente, sensibilizado, passa para  o lado da luz(os bonzinhos). Há  o casal de  idosos, um filho desgarrado...Há propaganda  subliminar, dirão alguns, entre as  quais  haver um único Senado na República congregando tantos Planetas( países), numa clara alusão a um Império. Mas na Saga a palavra "Império" designa o lado das  trevas, a maldade em estado máximo e  para  tanto a direção de  arte, figurinos  capricham sempre  com  visual que  lembra  os  capacetes  dos  nazistas(exemplo Real de  maldade  máxima). Os membros  da  resistência são descolados, usam as roupas que quiserem com especial foco em duas  jaquetas  de  couro.
Se nos  Contos Populares(Folclóricos, de  Fadas, Tradicionais, etc. como  queiram chamar) o
maniqueísmo funciona e é  a  regra, sabemos  que  na vida Real não  é  bem assim, com  breves exceções :  quando  há  regimes totalitários, que  aliás  exacerbam o maniqueísmo como forma de dominação ,  é  dever  rechaçá-los.
Contudo, o Modo de Vida Americano(American Way of Life), agora  incorporado pelos  chineses,  já comprovou que  levou o Planeta  a  esta  situação insustentável de poluição, aquecimento e risco, sem contar  ainda  que morrem 5 crianças  de  fome  por  minuto em pleno século XXI. O Professor Milton Santos disse que "o Consumismo é  um tipo de Fundamentalismo" e se  os
fundamentalismos  religiosos  são condenáveis por que  este  também  não seria?
Em Guerra  nas  Estrelas há  uma  frase que serve  muito aos  dias  atuais em  que as ficções nos
divertem, nos distraem da  dura  realidade em  que o futuro das  antigas  ficções-científicas chegou , mas certa  mentalidade da Idade Média retornou sem  medo e  sem  vergonha, tomara inspire a todos  que desejam um  mundo  melhor:
 "Esteja  a força  com  você"("May the  force  be  with you!" ) !

Escrito por  Márcia  Cristina  Paraguassu em 22/12/2015

domingo, 13 de setembro de 2015

Haicais em homenagem a Walt Whitman:


             1

as luzes  das flores

nas folhas de  relva esplendem

o riso nega as  dores



            2

o sombrio das folhas

na densa  relva escondido

a dor nega o riso





segunda-feira, 6 de maio de 2013

Do livro Silêncio Inaudito


                 repousam

               em minha mente

        imagens vindas de longe

Oriente onde nascem e morrem aqui

                                                                       na palma da mão Ocidente

            estranho percurso

          fuga insana pelos portões

                    de brilho e luz embebidos:

meus olhos são

                                 ainda a saída

e afinal

                  despertas então no papel

pousam

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


PALIMPSESTO

Palimpsesto

o mesmo texto
ou outro texto
sobre o anterior

a raspagem para dar lugar
ao outro
o novo
enquanto o velho vira pó
o mesmo texto
e o outro texto
ambos no mesmo espaço
em tempos distintos
o mesmo texto
sobre o mesmo espaço
margens e e s p a ç o s
entre as letras
variados
ambos sobre a
mesma superfície
tão cara
apreciada e valorizada
dois apenas não
tantos mais até aguentar
tanto aguenta o espaço?
sabe-se lá!
e os outros quanto serão
valorizados ou desvalorizados
ninguém sabe
sabe-se do pó: este voa
pó de papiro ou pergaminho
será o que entra pelas janelas ainda hoje
ou está soterrado?
pergaminho e papiro - tão valiosos e raros - preservados
mas caíram em desuso
o texto?
ainda persiste
igual às margens e espaços geográficos
persistência ímpar
por quê? pra quê?
por cargas d'água
que seja   per se
e sendo apenas
valer
tanto quanto
a raspagem e o escrever
o dar valor ou esquecer
o ser e não ser
e tantos sentidos feitos somente caso se escreva
e se fale
e se pense
e se invente
por Ser uma invenção contínua igual a vida
de quem vive
tal o palimpsesto
raspado e reescrito
com resquícios da anterior escrita
a nova sobre a antiga
nem que seja pra dizer
a mesma coisa
mas que se reflita
se for a mesma
reescrita
já será outra e pronto
servindo assim o espaço pra abrir
ao ser raspado
um novo espaço

e o pó levado aos quatro ventos
e talvez aspirado por alérgicos - coitados - espirrarão
e gotículas de textos em pó voarão
ou a tosse incômoda dos bronquíticos
em perdigotos incontáveis
espalhando os textos
invenção distante
longínqua deste mundo tão
ou quase
inteiramente
descartável
o Palimpsesto foi o primeiro artigo descartável!
e caro
e admirado
e a escrita percorre sobre
tão sedutora
e espantosamente duradoura superfície
até hoje nos chega
somente demudada daquela bela e valorizada
arte e ciência esotérica
domínio de tão poucos
banalizada agora sem quase necessidade
de borrachas ou teclas delete
ainda que se escreva e que se apague
ainda que se invente e se raspe
aonde está o valor? a que se dá?
dá-se o valor ao palimpsesto e às escritas e às vidas e invenções e atos e gestos e sentimentos e delicadas rendas e artes e pescas e caças e
semeaduras escorrem por terras longínquas
igualmente ninguém deseja morrer embora se morra queira ou não queira
valorizar e ser
a cafeteira elétrica ou vídeo game moderno tendo mais cartaz que o Texto
que esta caligrafia horrenda minha ou de vocês - de mim sei
eu sempre preguiçosa de preencher cadernos de caligrafia -
primário distante
memórias
Tudo ao soar do relógio de corda ou bateria ou ao por e nascer do sol
Tudo vai sem volta
o pó voando
e o texto sendo feito
o palimpsesto em desuso
e modernos computadores sendo despejados no mercado aos sôfregos consumidores
sonhos de consumo
e textos escritos e reescritos sem deixar resquícios
as sombras
os mal raspados
as marcas de traços
indicações de frases ou palavras ou letras
a invenção da palavra
texto
livro
a invenção de que se é no mundo e o mundo é um Lar - doce Lar -
ou ninho ou Planeta vagando num Universo infinito
a constatação dolorosa do minguado tamanho
a enorme fragilidade
das limitações - sobretudo do Tempo - nosso
a sabedoria - sapiência -
saber que se sabe tanto e se morre mesmo sabendo
ou sem saber - é igual -

ser palimpsesto na vida
ser raspado e dar lugar
ao novo texto
virar poeira o antigo corpo
ser reescrito a cada ciclo
ainda os restículos
há que se ter coragem de se raspar
e de se reescrever
e de se ler o novo
e admirar o espaço geográfico
vasto e sem limites - exceto o espaço físico - corpo minguado
porém ser palimpsesto na alma - ela exista ou não -
onde não há fronteira nem limitação alguma
reescrevendo e reescrevendo e reescrevendo
tudo
até as próprias ilusões
e ao se voltar à vida comum e banal
ver como sendo Palimpsesto se é humana total
e quanto o valor do espaço da tinta da raspagem do texto da caneta do lápis ou o que seja
e do leitor - sobretudo -
é real
constatar: palimpsesto que seja que sejamos!

escrevermos uma história nova ao nosso velho mundo
e sermos mais doces com a palavra dita tanto quanto com a escrita
e deixarmos a vida sem o peso de tê-la vivido mal vivida
e de que o mundo esteja melhor daqui pra lá
palimpsestos reescritos tantas vezes até virarem pó
e à última raspagem seja do último texto
sem salvar em discos rígidos
nem em cópias leves
Salvos por ventos longínquos que os levarão
e neste texto derradeiro estando a verdadeira
definitiva intenção do recomeço
embora na vida não dê tempo pra tantos
estando ele ainda vivo transmudado em pozinho
vivo na existência
na insistência
na resistência
na imanência
na consciência de saber da finitude da vida e de tudo que não seja inteiro verdadeiro
absolutos prazeres permeiam a jornada
entre os quais raspar o texto anterior
escrever outro e ler aproveitando o suporte e dando cores lindas à palavra escrita
e sentido ao pensamento tido
Palimpsesto é isto:
as ideias fixas e a memória esquecida no mesmo papiro pergaminho papel bytes
enfim
um corpo escrito
Leitores existirão?